Reforma trabalhista: a livre negociação
Foi-se o tempo em que o empregado não
tinha formação, era migrante do campo, sem instrução, tudo se
baseava na relação de confiança para seu sustento, diante de um
promissor processo de industrialização, inspirado nos ideais de um
capitalismo, cuja a confiança sempre teve dois pesos e duas medidas
no que se refere à equidade da relação de trabalho se fazendo
necessário a intervenção do Estado através de uma legislação
que oferecesse garantidas mínimas à parte mais fraca.
Para tentarmos compreender a realidade
presente das relações de trabalho, precisamos antes entender onde o
mercado de trabalho está inserido, como é o sistema econômico que
regem estas normas que hoje são tão pressionadas para a reforma,
principalmente do mercado externo como desculpa para investimentos.
Para isso, continuamos nossa viagem no
tempo, agora na relação de emprego da era Industrial, em que o
lucro era a meta única, alcancável sob o preço do custe o que
custasse, que neste termo incluia, a degradação da saúde, das
condições de vida do trabalhador, das condições ambientais, vale
tudo em nome do lucro acumulado.
Mas, a avareza do lucrador, não se
contentou mais apenas com o lucro, por isso ele deixou de ser meta
única e passou a partir dos ideais do neoliberalismo, a incluir mais
uma meta, a do dominio absoluto, fundindo-se a acumulação de bens
entre as grandes coorporações, como forma de lucro e poder.
Acumulou, juntou, agregou um volume monstruoso de bens e poder, ao
ponto de esgotar os bens e recurso da parte mais fraca e também
influenciar os governos, isto é, governar indiretamente.
2015 será lembrado como o primeiro
ano da série histórica no qual a riqueza de 1% da população
mundial alcançou a metade do valor total de ativos. Em outras
palavras: 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio
avaliado em 760.000 dólares (2,96 milhões de reais), possuem tanto
dinheiro líquido e investido quanto o 99% restante da população
mundial. Essa enorme disparidade entre privilegiados e o resto da
Humanidade, longe de diminuir, continua aumentando desde o início da
Grande Recessão, em 2008. A estatística do Credit Suisse, uma das
mais confiáveis, deixa somente uma leitura possível: os ricos
sairão da crise sendo mais ricos, tanto em termos absolutos como
relativos, e os pobres, relativamente mais pobres (FARIZA, 2015, p.
1).
A acumulação de bens na mãos de
poucos, e, a indisponibilidade de recursos nas mãos de muitos, gerou
um colapso no sistema econômico, pois, os que têm não conseguem
vender para os que não tem como comprar, se não conseguem vender,
também, não conseguem produzir, se não conseguem produzir, por
fim, não conseguem empregar, se não há empregado não a renda e o
ciclo se quebra, ou seja, estamos assistindo no modelo neoliberal, um
fenômeno semelhante ao da decadência do capitalismo no final da
década de 70, um sistema piramidal cujo ápice parece em vias de
sucumbir.
A saída menos gravosa para a solução
desse colapso parece impossível, pois, seria necessario des-reprezar
os bens acúmulados dos poderosos, e promover uma redistribuição de
rendas que trouxesse o poder aquisitivo novamente aos que não têm,
é aí que está o impossível, pois quem tem não dá e, também,
não quer dar.
Mas, o capitalismo e o neloliberalismo
têm em comum o “cada um por si”, o individualismo, cujo
mecanismo de assentamento das relações, chamamos assim, pois, ele
não admite controle por isso se denomina liberal, é conhecido como
mão invisível, ou seja, se eu posso fazer por mim, você
também é capaz, pouco importando as desigualdade de condições ou
a equidade, e, na medida em que cada um se da bem aqui, e outro se da
mal ali, o sistema se ajeita por si próprio, mas o que o mundo
mostra nesta experiencia dolorosa, é que a falta de controle ou o
cada um por si, jamais mostrou um equilíbrio na balança, mas, tão
somente dois pesos e duas medidas: a dos poucos que muito tem de um
lado, e, a dos muitos que pouco tem do outro.
Diante deste panorama vimos um governo
alucinado por uma reforma trabalhista, a final, só no Brasil esta
crise já afeta no mês de abril de 2017, 14,3 milhões de
desempregados, e sua pressa vem da esperança de repatriação de
investimentos que se diluiram pela irresponsabilidade do governo
anterior.
Mas, os investidores têm como modelo
de investimento a cultura do neoliberalismo, a do cada um por si, a
do individualismo, ou seja, cada um defendendo o seu próprio lucro,
pouco se importanto com bem estar dos 14,3 bilhões de desempregados.
Por outro lado o modelo econômico
brasileiro é misto, isto é, admite o neloliberalismo pelos
princípios da propriedade privada, e tambpem tem como garantia
constitucional o princípio da privacidade, contudo, em matéria
trabalhista, ele foge a regra e controla o mercado de trabalho ao
instituir como garantia constitucional o trabalho como valor social
assim como a assistência ao desamparado (Cf. Art. 6º da CR/88).
Assim, o primeiro ponto a se pensar na
reforma trabalhista vem da pergunta: a reforma é para o povo, ou
para os investidores externos? Estariam os investidores, ditando as
normas normas para o governo brasileiro na reforma trabalhista?
Se há uma controle diante de um
sistema que prega a mão invisível, outra pergunta emerge no
seguinte sentido: como se dá a livre negociação com equidade, isto
é, com equiparação jurídico-econômica para parte mais fraca
diante do poder da parte mais forte?
Para se equilibrar a balança entre o
interesse de iinvestimento e a empregabilidade, somos remetidos a uma
única saída, a representação de categorias, ou seja, a livre
negociação pelos sindicatos através das convenções coletivas do
trabalho, ou seja, os sindicatos estariam sendo chamados a fazer algo
que não fizeram nestes setenta e quatro anos de Consolidação das
Leis do Trabalho – C.L.T., representar efetivamente o trabalhador.
Quando falamos em representar
efetivamente, falamos daquele sindicato que não se disvirtuou em
representações politiqueiras, daqueles que atuam com transparência,
que prestam contas da contribuição sindical com lisura ao
contribuinte, que retorna para o empregado os benefícios das
contribuição, mas, ao contrário disso, o que acompanhamos nestes
tempos, são sindicatos que só se apresenta ao trabalhador
brasileiro, no momento de recolher obrigatoriamente a contribuição
sindical.
Assim, a inovação da reforma
traballhista com a livre negociação em que investidores e
sindicados de empregados não têm o bem estar do empregado como
meta, se torna temeroso confiar em uma negociação que exige
equidade nas mãos de daqueles que só defendem o interesse próprio,
que não tem transparência, que não vem o bom relacionamento entre
empregador-empregado, mas sempre medindo forças com chantagens.
Não há dúvida de que a livre
negociação é uma inovação, mas ao se falar de reforma, deveria
também incluir a reforma da relação de responsabilidades entre
sindicatos e empregados, para que a representação seja exercida de
forma efetiva e não com fisiologismos.
REFERÊNCIAS
FARIZA,
Ignácio: 1% da
população mundial concentra metade de toda a riqueza do planeta. In
El Pais, Edição
Eletrônica de 18.10.2015. Disponível em
<http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/13/economia/1444760736_267255.html>.
Acesso em 05 mai. 2017.
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